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Uma canção para beber* (Tradução de A drinking song, de W. B. Yeats)

O vinho vem pelos lábios O amor vem pelos olhos; Só disso seremos sábios Antes que estejamos mortos. Levanto o copo a meus lábios Olho-te, e me conforto.** Original: Wine comes in at the mouth And love comes in at the eye; That’s all we shall know for truth Before we grow old and die. I lift the glass to my mouth, I look at you, and I sigh. * o adjetivo drinking  pode indicar o assunto da canção, mas também a finalidade, como acontece na expressão drinking water  (água para beber, água potável). Escolhi essa última conotação. ** a palavra inglesa sigh  significa suspirar e, assim, pode transmitir um sentido negativo ou positivo a depender do contexto. Escolhi o sentido positivo. Porém, caso queiram o sentido negativo, podem substituir "me conforto" por "me desolo", e ainda se mantém a rima.

A si mesmo (TRADUÇÃO DE “AN SICH SELBST” DE ANDREAS GRYPHIUS)

Eu temo por meu ser; eu tremo em todo o corpo Se vejo o lábio, o nariz e a ocular fenda, Em trevas ao me erguer, do peito a brisa lenta E o véu de meus olhos o considero morto. A língua, em necrose, produz som com esforço E gagueja lhufas; a frágil alma tenta O Consolo chamar; à carne a cova é tenda; O médico se vai; a dor faz seu retorno. Meu corpo não é senão veias, pelo e ossos. Sentar-me é a morte, deitar-me já não posso. As coxas mesmo precisam então de auxílio. O que é o viço, e arte, honra e valor? Se a hora vem, tudo vira fumo e vapor, E a míngua a todos prepara seu morticínio. Original: Mir grauet vor mir selbst; mir zittern alle Glieder, Wenn ich die Lipp und Nas und beider Augen Kluft, Die blind vom Wachen sind, des Atems schwere Luft Betracht’ und die nun schon erstorbnen Augen-Lider. Die Zunge, schwarz vom Brand, fällt mit den Worten nieder Und lallt ich weiß nicht was; die müde Seele ruft Dem großen Tröster zu; das Fleisch ruft nach der Gruft; Die Ärzte lassen mich; die S...

Nada bom permanece (Tradução de "Nothing gold can stay", de Robert Frost)

A vida nasce ouro, O mais raro tesouro. A folha em flor se faz, Mas logo não é mais. A folha se desfolha, Cai do Éden e chora; Tal a aurora vanesce. Nada bom permanece. Original: Nature’s first green is gold, Her hardest hue to hold. Her early leaf’s a flower; But only so an hour. Then leaf subsides to leaf. So Eden sank to grief, So dawn goes down to day. Nothing gold can stay.

Love and its time (Versão do poema "Amor e seu tempo", de Carlos Drummond de Andrade)

Love is a privilege of the aged mature Who closely lie in the straitest of beds, Which turns into the largest and most grassy, Caressing, in each pore, the body's heaven. It's this, love: the unforeseen benefit, The buried and radiant accolade, Reading of the encoded lightning strike, That, once decoded, there is nothing left That is worth the while and the earthly cost, Other than the clock's rarest of moments, Minuscule, pulsating in the twilight. Love is the thing learned on the borderline, After filing away the whole science Inherited, told. Love is started late. Original: Amor é privilégio de maduros Estendidos na mais estreita cama, Que se torna a mais larga e mais relvosa, Roçando, em cada poro, o céu do corpo. É isto, amor: o ganho não previsto, O prêmio subterrâneo e coruscante, Leitura de relâmpago cifrado, Que, decifrado, nada mais existe Valendo a pena e o preço do terrestre, Salvo o minuto de ouro no relógio Minúsculo, vibrando no crepúsculo. Amor é o que se ap...

Três anos depois (Tradução de um trecho do poema "Trois ans après", de Victor Hugo)

Deus! Pudeste acreditar Que amaria, sob os céus, Tua glória a me assustar Mais que os doces olhos seus? Soubera eu tuas leis sombrias, E que ao gênio fascinado Não concedes, em tuas vias, Nem verdade nem agrado, Em vez de erguer tuas cortinas, E buscar-te, triste e puro, No seio de estrelas divinas, Ó Deus de um mundo obscuro, Seguiria eu, com graça, Sem ti, um estreito trilho, A ser um homem que passa, De mãos dadas com seu filho! Original: Ô Dieu ! vraiment, as-tu pu croire Que je préférais, sous les cieux, L'effrayant rayon de ta gloire Aux douces lueurs de ses yeux ? Si j'avais su tes lois moroses, Et qu'au même esprit enchanté Tu ne donnes point ces deux choses, Le bonheur et la vérité, Plutôt que de lever tes voiles, Et de chercher, coeur triste et pur, A te voir au fond des étoiles, Ô Dieu sombre d'un monde obscur, J'eusse aimé mieux, loin de ta face, Suivre, heureux, un étroit chemin, Et n'être qu'un homme qui passe Tenant son enfant par la main !

Um ínfimo pássaro (Tradução de "A Minor Bird", de Robert Frost)

Desejei que um passarinho fosse embora, E não cantasse em minha casa toda hora; Bati minhas mãos contra ele na porta Como alguém que não mais suporta. O defeito talvez em parte estivesse em mim. O pássaro não tem culpa de cantar assim. E certamente deve haver alguma transgressão Em querer calar qualquer canção. Original: I have wished a bird would fly away, And not sing by my house all day; Have clapped my hands at him from the door When it seemed as if I could bear no more. The fault must partly have been in me. The bird was not to blame for his key. And of course there must be something wrong In wanting to silence any song.